Índice
1. O que configura um "app para crianças"
Você não precisa declarar explicitamente que o app é "para crianças" para ser afetado pelas regras — as lojas e reguladores olham para o público-alvo real, não apenas para o declarado.
Um app é considerado direcionado a crianças se: é classificado na categoria infantil das lojas, tem personagens animados atraentes para crianças, usa linguagem simples voltada a crianças, ou é claramente um jogo/app de aprendizado infantil.
Se o app tem múltiplos públicos (ex: app de educação para alunos e professores), as regras de proteção de menores ainda se aplicam à parte que atende crianças.
2. COPPA — lei americana que afeta apps brasileiros
A COPPA (Children's Online Privacy Protection Act) é uma lei americana que proíbe coletar dados pessoais de crianças menores de 13 anos sem consentimento dos pais. Ela se aplica a qualquer serviço acessado por usuários americanos — incluindo apps brasileiros disponíveis na App Store e Google Play dos EUA.
O que a COPPA exige:
- Não coletar nome, e-mail, localização ou qualquer dado pessoal de crianças sem consentimento parental verificável.
- Não exibir publicidade comportamental para crianças.
- Não compartilhar dados de crianças com terceiros para fins de analytics ou publicidade.
- Ter uma política de privacidade específica e clara sobre os dados de crianças.
Multas por violação de COPPA chegam a $50.000 por violação por dia. Apps como TikTok já pagaram multas bilionárias por isso.
3. LGPD e dados de menores
No Brasil, a LGPD tem proteções específicas para menores de 18 anos. Para coletar qualquer dado de crianças (menores de 12 anos) ou adolescentes (12-17 anos):
- Crianças: consentimento deve ser dado pelos pais ou responsável legal, de forma explícita.
- Adolescentes: podem consentir por conta própria, mas o tratamento de dados precisa ser transparente e no melhor interesse do menor.
- O app deve ter mecanismo para que pais possam solicitar exclusão dos dados do filho.
⚠️ A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) tem competência para multar apps que violem a LGPD em relação a dados de menores. As multas podem chegar a 2% do faturamento, limitado a R$50 milhões por infração.
4. App Store — Kids Category
A Apple tem uma categoria especial "Kids" na App Store com regras adicionais:
- Sem publicidade de terceiros: proibida qualquer publicidade contextual ou comportamental.
- Sem links externos: o app não pode ter links para websites externos, redes sociais ou outros apps sem aprovação dos pais.
- Sem compras de um clique: IAPs precisam ter autenticação adicional (confirmação de senha ou Touch ID) para evitar compras acidentais por crianças.
- Conteúdo de terceiros controlado: se o app exibe conteúdo gerado por usuários, precisa ter moderação ativa.
- Privacidade reforçada: Privacy Labels precisam indicar claramente quais dados são coletados.
Apps na categoria Kids passam por revisão mais detalhada — espere um tempo de análise maior que a média.
5. Google Play — Designed for Families
O Google Play tem o programa Designed for Families com requisitos similares:
- Não pode usar identificadores de publicidade (ADID) para crianças.
- Sem publicidade comportamental ou segmentada para o público infantil.
- Deve declarar o público-alvo no Play Console (crianças, crianças e adultos, ou apenas adultos).
- Apps que declaram público infantil passam por revisão adicional pelo Google.
- SDKs de analytics e publicidade precisam ser compatíveis com a política de famílias do Google.
✓ O Google tem uma lista de SDKs aprovados para uso em apps infantis: developers.google.com/families/ads-sdk. Use apenas SDKs dessa lista se o app atende crianças.
6. Publicidade em apps infantis
Publicidade em apps infantis é altamente restrita. Na prática:
- Google AdMob: tem um modo "child-directed treatment" que desativa ads comportamentais. Deve ser ativado explicitamente.
- Facebook Audience Network: não pode ser usado em apps que têm crianças como público primário.
- Publicidade nativa ou editorial: permitida se não for comportamental e não engana o usuário sobre o conteúdo.
A regra geral: se o SDK de publicidade usa dados do usuário para segmentação, não pode ser usado em apps infantis sem modo especial de proteção à privacidade.
7. Compras dentro do app (IAP)
IAPs em apps infantis são permitidos, mas com restrições:
- A Apple exige que compras em apps da categoria Kids usem autenticação adicional — o padrão Ask to Buy é recomendado.
- Não pode haver pressão psicológica ou urgência artificial para fazer crianças comprarem (dark patterns).
- A descrição do app deve informar claramente que há compras disponíveis.
8. Checklist antes de publicar
- Política de privacidade específica mencionando proteção de dados de crianças.
- Nenhum SDK de publicidade comportamental (ou modo child-directed ativado).
- Sem links externos sem controle parental.
- Privacy Labels (App Store) declarando ausência ou limitação de coleta de dados.
- Data Safety (Google Play) com resposta honesta sobre dados de menores.
- Mecanismo para pais solicitarem exclusão de dados dos filhos.
- Consentimento parental implementado antes de qualquer coleta de dados de crianças.
- Classificação etária correta nas lojas.
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